Uaninauei

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LUME DE CHÃO


1. Neve Carbónica


2. Cantiga de um Ladrão


3. Chamas em Mim


4. Balada do Cavalo


5. Betoneira (Vida do Mal)


6. Circos a Arder


7. Guilhotina


8. O Rei

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«Há dias ou noites em que achamos que as surpresas surgem de uma forma bem positiva. Foi o que me aconteceu numa noite fria de verão, numa localidade do Alentejo profundo onde apenas uma rede móvel funcionava em condições. No meio de um local que parecia esquecido por todo um país, surgiu-me um rapaz com vontade de comunicar, e falámos de música. Aliás, estávamos ali para isso mesmo, numa final de um concurso de bandas.

No final da noite, o Daniel Catarino deixou-me partir com a promessa de me enviar as músicas que uns meses mais tarde dariam origem ao álbum “Lume de Chão”, que agora apresenta os Uaninauei. Quando elas chegaram, a surpresa foi ainda mais positiva. As canções são bastante fortes e a gravação é muito boa, duas características fundamentais para se dar atenção a algo de novo. A verdade é que os Uaninauei (diz-se "one in a way") escolheram um nome difícil de ler à primeira, mas pleno de conceito. As letras são em português, e nos dias que correm são uma agradável surpresa, porque estão livres de alguns atropelos linguísticos tão comuns e servem as músicas na perfeição.


O nome da banda é uma espécie de brincadeira quase secreta com algumas letras de bandas nacionais que cantam em inglês, e cujas palavras fazem lembrar algo parecido com “Running Away” aportuguesado. Os Uaninauei foram uma das bandas nacionais que mais me surpreenderam nos últimos meses. São bons músicos, sabem o caminho que querem seguir e não procuram facilitar. Podemos arranjar pontos de contacto com outras bandas, é fácil pelo som que praticam entender que aqui ou ali fazem lembrar os Ornatos Violeta ou os Mundo Cão, mas a verdade é que têm muita personalidade. As suas 3 guitarras dão à banda um som muito mais musculado, quase que tocando por vezes o metal mas sem nunca entrar por aí, embora usando alguns dos seus elementos.


São assumidamente uma banda rock com todas as suas virtudes, sem complexos e que não esquecem as suas raízes alentejanas, mostrando até certo orgulho ao incluírem um coro de cantares regionais no meio de um dos seus temas. No fundo, “Lume de Chão” é um óptimo disco de estreia. Será um erro passar ao lado deste disco sem pelo menos lhe dar uma oportunidade.»


Nuno Calado (Antena 3)

NEVE CARBÓNICA


Ver ginastas a cair
Prostitutas a sorrir
Entra na roda um pedinte orgulhoso
O filho pródigo da arma do crime
Um gato preto que se esconde num prédio
Vai algemado o assassino sem vítima

São paredes sem cor em casas de vapor
Diz que é tudo normal

Abre no espaço um portão
onde se toca no chão

Precipício infinito
Quem cai não chega ao fim
São asas de granito
Crescem atrás de mim
Num mundo sem fronteiras
É proibida a lei
E quebram-se as barreiras
Entre o povo e o rei

E vês Babel a ruir
E o planeta a implodir
São muros sem betão

São consciências em expansão
do céu profundo ao caixão
Vê-se planar um balão de oxigénio
E há promoção de prostitutas na rua
Vês aumentar a biblioteca da ignorância
E a cada passo pisas outro buraco

São telhados de vidro que partem sem ruído
Parte-se em mil o céu

Chovem estilhaços em ti
São mil muros de Berlim

É mental essa violação das hormonas em construção
Corpos de pedra que pairam no ar
Ouvem-se ao longe os céus de vidro a quebrar

Neve Carbónica, neve carbónica
Terra fumegante e sulfurosa
Criança agonizando sob a cinza de relógios velhos
Placas de antimónio violadas
Pelo mistério dos sábios
Pelos cosmonautas
Pelos ultra-sons
E o autómato caminha lentamente
vertendo mercúrio pelas veias de aço
Sonhos impossíveis
Números impossíveis
Raios laser
Neve carbónica

CANTIGA DE UM LADRÃO


Estou de passagem para a outra margem
Tenho um Jesus numa cruz à minha imagem
E o nervosismo dá em cinismo
Ou em filosofia de autoclismo

Perdi o sentido de humor
Na sedentária vida ordinária
Ou é do frio ou do calor
Ou da precária conta bancária

Medo
Não tenho medo

Bem-me-quer
Malmequer
Cantiga de um ladrão

Anda cá
Volta atrás
Não vou dizer que não

Pensas que isto é tudo invenção?

Gente que mal desperta veste a cueca da imitação
Gente que se apavora se chega a hora e não há canção

Comes o fruto do ouro bruto
Pensas que chove e que tu ficas enxuto
Burro ou astuto
Levas o tempo a dormir em pé

Gente que sabe tudo e rouba ao mundo opiniões
Gente que se faz grande e leva no sangue mil frustrações

Sentas-te à mesa da tua presa
Não tens dinheiro mas comes sobremesa
Tens a certeza
Que o mundo é filho de um pai sem fé

CHAMAS EM MIM


Ardes por dentro e por fora
Vês as paredes fechar
Sentes que já não demora
E que não vais aguentar

As paredes fecham-te num quarto escuro onde queimas o ar
Na respiração ofegante de quem não quer respirar

Mas se o fogo é meu
Quem o acendeu fui eu

Tenho chamas em mim
Tenho chamas em mim
Tirem-me daqui

Escreves o momento nas paredes ocas de uma casa qualquer
Como se o desejo fosse combustível de uma chama a arder
E o desejo é um ventre suado numa dança final
Não aguentas o tempo morno desse corpo banal

Mas se o fogo é teu
Não fui eu quem o acendeu

Passo em falso
Vais descalço
Passo em frente
Vais dormente

Passo em falso, vais descalço
Num processo indolor
Sente o corpo quente, fogo ardente
Chama sem cor

BALADA DO CAVALO


Sentado atrás de um bar, picado até voar
E nada vais fazer até amanhecer
E o riso sem razão vai-te colando ao chão
E suas sem calor num plano tricolor
E não te deixam em paz aonde quer que vás

Já respiras demais

Estica o braço até ao céu
são mais juízes que réus
compra um tempo sem razão
à porta de um barracão

Já respiras melhor?

Quando o corpo se queixar
Roubas tempo a quem passar
E esse braço levantado
todo envenenado

Já respiras demais
Já respiras melhor?

Não me deixam dormir
Não me deixam dormir
A noite está para vir
E não me deixam dormir

E este muro vai cair
Vês o barco a passar
Vês a multidão voar atrás de ti assim
Isto não tem volta a dar

Eu perdi o meu amor
A seguir fui lá buscá-lo
Dediquei-lhe uma modinha
A balada do cavalo

BETONEIRA (VIDA DO MAL)


Não, não preciso que rezem por mim
Que me imponham a fé na razão
Nem preciso que me queiram aqui
Deixem-me da mão

Diz a freira com o seu olho vesgo
Que o destino é vago, mal o vejo
Dizem-me que o altar já ardeu
E que o padre morreu
E que o padre morreu

Não, não insisto que vão por mim
Se nem eu sei para onde vou
Não resisto à ironia do fim
Se acabar, acabou

Diz o padre com o seu fato branco
Que o destino é vesgo, surdo e manco
Ninguém o ajuda a ser normal
Nesta vida do mal
Nesta vida do mal

E o pão diminui
E o padre engorda
E o fiel que reza
Vai deixando a esmola

E o santo cai
Desfaz-se em ouro
Cada reza é um potencial tesouro

E o milagre é teu
Caído do céu
Condenado a não levar
Esta vida do mal

Querias mais
Querias mais do que não tens
Pão, água e reféns

Querias ter
Querias ter mas nunca tens
Mais que três vinténs

Querias mais
Querias mais do que não tens

CIRCOS A ARDER


Anda

É por aqui que os circos ardem

Anda

É por aqui que a gente foge


São gnomos e anões

Que surgem de entre o fumo

Cavalos e leões

Que lutam sem futuro


São circos a arder

São jaulas que se abrem

São cobras a morder

Os homens que aplaudem


Pensamento animal

Como artista principal

Quem não tenta fugir fica em cinza no chão

Morto em chamas sem caixão


Está tudo a arder


São trapezistas cegos

Que fogem sem destino

E os exorcistas mancos

Que abraçam o demónio


E quem pegou fogo à tenda

Foi o freak malabarista

Que brinca com o fogo

Com a mania que é artista

GUILHOTINA

O eco vai pairar no vazio que entoas
No infinito ar em que agora voas

Não tem fim o esquecimento
Que o futuro é movimento
Deixa o tempo naufragar
Deixa pairar o silêncio

O carrasco és tu que escreves a tua sina
E um dia vais voltar a ser a guilhotina

Não tem fim o movimento
Que o futuro é esquecimento
Deixa o tempo naufragar
Fica preso no silêncio

Já não sei o que estou a fazer mais aqui
Nem sei bem se o que sou é parte ambígua de mim

Volta atrás sem mim
Que eu sigo por aqui

Não fiques resignado a ser assim
Se o tempo se parar ao pé de ti

No amanhecer de um dia sem agenda
Tentar falar sem que alguém te entenda

O REI


Se não queres estar de pé
Então fica sentado
Se não aguentas a pressão
Então põe-te de lado
Se não tens nada a dizer
Então fica calado
Que não estamos para ouvir
Cantar o mesmo fado

Não te desejo mais nem menos
do que quero para mim
Se viajar no tempo
Não é a solução mais fácil
para quem quer estar aqui
No mesmo lamento

O teu queixume igual
Que isto está tudo mal
Haja saúde diz ao neto o velho
Não sejas coitadinho
bebe um copo de vinho
que te faz bem deixar de olhar ao espelho

Se não queres ser feliz
Então fica amuado
Se não queres estar aqui
Então vai para outro lado
Já estamos fartos de ouvir
Cantar o mesmo fado

Músicas por Uaninauei

Letras por Daniel Catarino

(c) 2010 Uaninauei